Quando o Otimismo Custa Caro: Lições para a Regulação do Setor Elétrico

A regulação deveria funcionar como um contrapeso racional a esses vieses, estabelecendo mecanismos de precificação de risco e exigindo estudos baseados em cenários conservadores

O viés do otimismo é um dos mais persistentes nas decisões humanas e, quando transposto para o campo da regulação do setor elétrico, torna-se ainda mais perigoso, pois se manifesta em escolhas de longo prazo com impacto direto sobre a segurança energética, a modicidade tarifária e a sustentabilidade dos investimentos.

Esse viés faz com que reguladores, empresas e formuladores de políticas públicas superestimem cenários positivos, subestimem riscos e custos futuros e se apoiem em projeções excessivamente benevolentes. No setor elétrico, essa ilusão de controle e previsibilidade se traduz, muitas vezes, em planos de expansão que ignoram variáveis críticas, em cálculos tarifários baseados em premissas frágeis ou em incentivos a tecnologias ainda imaturas, sob a crença de que “o mercado se ajustará”.

Um exemplo clássico dessa distorção é a recorrente expectativa de queda estrutural nos custos de determinadas fontes de geração ou de tecnologias de armazenamento. Embora as curvas de aprendizado sejam reais, a confiança exagerada em reduções futuras leva a políticas de atraso em investimentos robustos ou a uma dependência excessiva de subsídios temporários, que se tornam permanentes.

Da mesma forma, na definição de tarifas, a expectativa otimista de chuvas regulares ou de estabilidade hidrológica pode levar a uma precificação artificialmente baixa, seguida por choques tarifários quando a realidade do sistema expõe os riscos não precificados. Em um setor que demanda previsibilidade e planejamento de décadas, o otimismo não é apenas uma falha cognitiva, mas um erro estrutural que desorganiza mercados e mina a confiança dos investidores.

A regulação deveria funcionar como um contrapeso racional a esses vieses, estabelecendo mecanismos de precificação de risco e exigindo estudos baseados em cenários conservadores. No entanto, reguladores também são humanos — e pressionados por interesses políticos e sociais que valorizam mais o benefício imediato do que a segurança futura.

A tentação de anunciar tarifas mais baixas ou metas ambiciosas de descarbonização, sem o devido lastro técnico e financeiro, é reforçada por um ambiente em que o otimismo é socialmente recompensado, enquanto a prudência costuma ser mal interpretada como falta de visão ou excesso de cautela. Esse cenário produz um ciclo de decisões desequilibradas: investidores apostam em cenários de alta rentabilidade, governos assumem compromissos de expansão rápida e o sistema, no médio prazo, absorve o impacto de custos imprevistos e crises de fornecimento.

A Análise Econômica do Direito nos ensina que o regulador ideal deveria corrigir falhas de mercado e, ao mesmo tempo, mitigar distorções de percepção. Essa tarefa exige mecanismos de revisão regulatória baseados em dados reais, transparência na comunicação de riscos e a criação de incentivos que valorizem o comportamento prudente, e não apenas o crescimento acelerado. No entanto, enquanto persistirem crenças infundadas de que a tecnologia resolverá todos os gargalos, de que a intermitência das renováveis será facilmente superada ou de que o consumidor final está disposto a financiar, via tarifa, um modelo de expansão otimista, o setor continuará refém de decisões que não resistem ao teste do tempo.

É possível construir uma regulação que proteja o sistema elétrico da cegueira do otimismo? Como equilibrar o incentivo à inovação com a necessidade de incorporar riscos reais às tarifas e contratos? Até que ponto estamos preparados para aceitar decisões menos populares, mas mais prudentes, em um setor em que o custo do erro se propaga por toda a economia?

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