Modelos de negócio para hidrogênio verde: estruturas contratuais, desafios e casos reais

Os modelos de negócio emergem como elemento-chave para viabilizar projetos. O uso de contratos de compra e venda de longo prazo, como os HPAs (Hydrogen Purchase Agreements), inspirados nos PPAs do setor elétrico, é essencial para garantir previsibilidade de receita.

O hidrogênio de baixa emissão, especialmente o hidrogênio verde produzido a partir de fontes renováveis, está se consolidando como uma das principais apostas globais para a descarbonização de setores de difícil eletrificação, como a indústria de base, o transporte pesado e a aviação. Impulsionados pela busca pela neutralidade climática, governos e empresas têm intensificado investimentos e projetos-piloto no setor. No entanto, apesar do entusiasmo em torno da “economia do hidrogênio”, ainda há desafios substanciais a serem superados, especialmente em relação aos custos de produção, regulação e infraestrutura.

Hoje, a Europa, os Estados Unidos e a China se destacam como epicentros da nova economia do hidrogênio. A Europa lidera em termos de projetos anunciados, com cerca de 35% dos investimentos globais previstos até 2030, puxada por estratégias nacionais e investimentos estruturantes no Mar do Norte e parcerias com regiões exportadoras, como o Norte da África (HYDROGEN COUNCIL, 2023). Nos Estados Unidos, a Lei de Redução da Inflação (IRA) gerou forte crescimento em projetos com investimentos comprometidos, tornando o país líder em decisões finais de investimento. A China, por sua vez, tem a maior capacidade instalada de eletrólise, com mais de 780 MW, e vem implantando projetos de larga escala com alta velocidade, beneficiando-se de custos de capital mais baixos e forte apoio estatal (IEA, 2022). Outras regiões com recursos naturais abundantes, como Chile, Arábia Saudita, Austrália e Emirados Árabes Unidos, também estão em posição estratégica para produzir hidrogênio a baixo custo para exportação.

A produção de hidrogênio verde se baseia na eletrólise da água com energia renovável. Os projetos podem ser conectados à rede elétrica ou ter usinas solares e eólicas dedicadas, muitas vezes com baterias para estabilizar a intermitência. As tecnologias de eletrólise variam entre alcalina, PEM e óxido sólido, com diferentes estágios de maturidade e custos. Atualmente, o custo do hidrogênio verde gira entre US$ 4 e 6 por kg, sendo mais caro que o hidrogênio cinza (proveniente de combustível fóssil), cuja produção representa 98% do mercado global (IEA, 2022). Os desafios incluem o custo da eletricidade renovável, a necessidade de escalabilidade, a disponibilidade de água e o investimento inicial elevado. É esperada uma redução significativa desses custos até 2030, com eletrolisadores mais baratos, maior eficiência e eletricidade mais acessível 

Abaixo, observa-se a comparação visual dos custos estimados por tipo de hidrogênio, destacando a diferença significativa entre as rotas cinza, azul e verde:

Por outro lado, o hidrogênio azul, produzido a partir de gás natural com captura e armazenamento de carbono (CCS), pode ser mais competitivo no curto prazo, especialmente em regiões com gás barato e infraestrutura de CCS disponível. No entanto, sua aceitação depende de regulações ambientais cada vez mais exigentes, além de envolver emissões fugitivas de metano. A competição entre o hidrogênio verde e o azul é marcada por um cenário político e regulatório em constante evolução, no qual a definição do que é hidrogênio “limpo” varia entre jurisdições (IRENA, 2022).

Nesse contexto, os modelos de negócio emergem como elemento-chave para viabilizar projetos. O uso de contratos de compra e venda de longo prazo, como os HPAs (Hydrogen Purchase Agreements), inspirados nos PPAs do setor elétrico, é essencial para garantir previsibilidade de receita. Esses contratos são usualmente estruturados com cláusulas take-or-pay, garantindo o pagamento mesmo que o hidrogênio não seja efetivamente retirado pelo comprador. Em muitos casos, os preços são calculados com base nos custos de produção mais uma margem, ou atrelados ao custo da eletricidade, dado que ainda não existe um mercado spot consolidado de hidrogênio (NORTON ROSE FULBRIGHT, 2023). A tendência é que os HPAs sigam modelos do mercado de GNL, com opções de make-up, indexação, revisão de preços e incluso de logística.

A seguir, apresenta-se um fluxograma simplificado da estrutura contratual de um HPA:

Casos concretos já demonstram como esses modelos estão sendo implementados. Em Puertollano, na Espanha, a Iberdrola e a Fertiberia firmaram parceria para produzir hidrogênio verde com energia solar e utilizá-lo na produção de fertilizantes, com contrato de offtake de longo prazo (IBERDROLA, 2023). Na Arábia Saudita, o megaprojeto NEOM, liderado pela Air Products, prevê a exportação de amônia verde com contrato exclusivo de 30 anos (AIR PRODUCTS, 2023). Na China, a Baofeng Energy integra a produção de hidrogênio a seus processos industriais com uso próprio (BAOFENG, 2023). No Chile, o projeto Haru Oni converte hidrogênio verde em combustíveis sintéticos com apoio da Porsche (SIEMENS ENERGY, 2023). Na Dinamarca, o projeto HySynergy fornece hidrogênio verde a uma refinaria e monetiza o oxigênio residual (EVERFUEL, 2023).

Em comum, esses projetos combinam integração vertical, contratos de longo prazo, apoio estatal e localização estratégica. No Brasil, o potencial para o hidrogênio verde é significativo, dada a matriz elétrica predominantemente renovável e a abundância de recursos naturais. Estados como Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul já abrigam projetos-piloto e memorandos de entendimento com empresas estrangeiras interessados na produção e exportação de hidrogênio verde via portos estratégicos como o de Pecém e Açu. O País se posiciona como futuro exportador para Europa e Ásia, embora ainda careça de regulamentação dos marcos regulatórios específicos e de políticas públicas estruturadas para competitividade internacional. A inclusão do hidrogênio na Política Nacional de Transição Energética e os planos da Petrobras para investir em projetos de H2V são sinais positivos, mas o desafio está em converter o potencial técnico em projetos viáveis financeiramente e inseridos em cadeias globais de valor. Eles também enfrentam desafios operacionais como intermitência da energia, sinergia entre parceiros, certificação de origem do hidrogênio e logística de transporte. Do ponto de vista estratégico, os investidores precisam gerir incertezas quanto à demanda futura, regulação, riscos políticos e evolução tecnológica. A opção por projetos modulares, uso de derivados como amônia ou metanol e diversificação geográfica são formas de mitigar riscos e capturar oportunidades.

O sucesso dessa nova economia do hidrogênio dependerá da capacidade de construir modelos de negócio robustos, capazes de atravessar a fase de alto custo e baixa liquidez de mercado. A chave está em negociar contratos inteligentes, formar alianças estratégicas e alinhar os objetivos econômicos dos investidores às metas globais de sustentabilidade. Projetos pioneiros já apontam os caminhos mais promissores e mostram que, com estrutura jurídica adequada, gestão eficiente e visão de longo prazo, o hidrogênio pode deixar de ser uma promessa e se tornar uma solução concreta para a transição energética.

Referências

AIR PRODUCTS. NEOM Green Hydrogen Project. Disponível em: https://www.airproducts.com/energy-transition/neom-green-hydrogen-complex. Acesso em: 27 mar. 2025.

BAOFENG ENERGY. Hydrogen Project Documentation. Disponível em: https://www.baofengenergy.com. Acesso em: 27 mar. 2025.

BLOOMBERGNEF. Clean Hydrogen Market Outlook. 2023. Disponível em: https://about.bnef.com/blog/clean-hydrogen-market-outlook. Acesso em: 27 mar. 2025.

EVERFUEL. HySynergy Project Overview. 2023. Disponível em: https://www.everfuel.com/hysynergy. Acesso em: 27 mar. 2025.

HYDROGEN COUNCIL. Hydrogen Insights 2023. Disponível em: https://hydrogencouncil.com/en/hydrogen-insights-2023. Acesso em: 27 mar. 2025.

IBERDROLA. Puertollano Green Hydrogen Plant. 2023. Disponível em: https://www.iberdrola.com/innovation/green-hydrogen-plant-puertollano. Acesso em: 27 mar. 2025.

IEA. Global Hydrogen Review 2022. International Energy Agency. Disponível em: https://www.iea.org/reports/global-hydrogen-review-2022. Acesso em: 27 mar. 2025.

IRENA. Geopolitics of the Energy Transformation: The Hydrogen Factor. International Renewable Energy Agency, 2022. Disponível em: https://www.irena.org/publications/2022/Jan/Geopolitics-of-the-Energy-Transformation-Hydrogen. Acesso em: 27 mar. 2025.

NORTON ROSE FULBRIGHT. Hydrogen Offtake Agreements: Legal Considerations. 2023. Disponível em: https://www.nortonrosefulbright.com/en/knowledge/publications/83d40c3d/hydrogen-offtake-agreements. Acesso em: 27 mar. 2025.

SIEMENS ENERGY. Haru Oni Pilot Project. 2023. Disponível em: https://www.siemens-energy.com/global/en/news/magazine/2022/pilot-project-haru-oni.html. Acesso em: 27 mar. 2025.

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